Você já se perguntou quais competências serão cobradas dos nossos alunos daqui a alguns anos? Mais do que isso: as nossas salas de aula estão prontas para preparar cidadãos capazes de distinguir o que é gerado por humanos do que é fruto de uma Inteligência Artificial?
O cenário educacional global está prestes a passar por uma de suas transformações mais profundas. Durante o 4º Encontro Internacional de Educação Midiática, realizado pelo EducaMídia e pelo Instituto Palavra Aberta, as reflexões de Francisco Madriz (OCDE/PISA) e da educadora e especialista em políticas públicas Cláudia Costin deixaram um alerta claro: o letramento midiático e a Inteligência Artificial (IA) deixaram de ser temas eletivos ou "do futuro". Eles são, hoje, os pilares da cidadania moderna.
A Nova Matriz do PISA 2029: Você já ouviu falar no MAI?
Se o PISA dita tendências globais de avaliação, o ano de 2029 será o divisor de águas. Francisco Madriz apresentou a estrutura da nova matriz da avaliação, que introduz o acrônimo MAI (Media and Artificial Intelligence Literacy) ou Letramento em Mídia e Inteligência Artificial.
A premissa é de total interdependência: a educação midiática sem IA torna-se incompleta, enquanto o ensino de IA sem o viés midiático corre o risco de ser puramente técnico. Como equilibrar essa balança?
A matriz proposta pela OCDE foca em quatro competências principais, tendo no centro o agir e o refletir de forma ética e responsável:
Acessar e Utilizar: Saber localizar e curar conteúdos em ambientes mediados por algoritmos.
Analisar e Avaliar: Considerada a "proteína" da avaliação, exige que o estudante verifique o propósito, o viés, a relevância e a credibilidade de conteúdos gerados tanto por humanos quanto por máquinas.
Participar e Colaborar: Atuar em contextos digitais compreendendo como a IA pode moldar, e, às vezes, distorcer, as interações sociais.
Criar: Produzir conteúdos usando ferramentas de IA de forma autônoma, autoral e ética.
Madriz ressaltou que a inteligência artificial reconfigura conceitos tradicionais que considerávamos consolidados. A autoria, agora, passa a ser uma colaboração entre humanos e máquinas, enquanto a própria realidade passa a ser vista como uma representação construída, moldada pelas escolhas humanas no treinamento dos algoritmos. Diante desse cenário, como nós, professores, podemos despertar nos alunos o desejo de questionar a "verdade" gerada por uma tela?
O Contexto Brasileiro: Além do "Arroz com Feijão"
Quando o assunto é a realidade brasileira, Cláudia Costin trouxe a urgência dessa pauta para o chão da escola. Ela rebateu com firmeza a ideia de que o Brasil precisa focar apenas nas competências básicas tradicionais (o famoso "arroz com feijão") antes de discutir tecnologia. Para Costin, as crianças e os jovens já estão imersos no ecossistema digital; ignorar esse fato é deixá-los desprotegidos e vulneráveis.
A especialista destacou dados que são, ao mesmo tempo, um sinal de alerta e uma fonte de inspiração:
Cerca de 54% dos professores brasileiros já utilizam IA em suas rotinas, mas muitos ainda carecem do domínio crítico necessário para mediar esse uso. Somado a isso, a formação inicial de professores enfrenta uma crise de qualidade, com uma forte expansão do ensino à distância sem o devido aprofundamento prático.
Por outro lado, exemplos práticos mostram que a mudança é possível. O estado do Piauí foi citado como um caso de sucesso: escolas de ensino médio da rede pública já têm aulas de IA integradas ao currículo, sem abrir mão do foco na alfabetização e na matemática, superando, inclusive, os índices de desenvolvimento de estados historicamente mais ricos.
O Futuro do Trabalho e as Habilidades Essencialmente Humanas
Citando estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as transformações previstas para o mercado até 2030, Costin enfatizou que o papel da educação deve ser o de potencializar o que nos torna essencialmente humanos e que os robôs ainda não conseguem replicar: resolução colaborativa de problemas complexos, criatividade originária, pensamento crítico, empatia e resiliência.
Os resultados do PISA 2022 já haviam acendido a luz vermelha, mostrando que os estudantes brasileiros tiveram um desempenho abaixo da média em pensamento criativo: a famosa capacidade de "pensar fora da caixa".
Esse dado reforça que o letramento midiático e de IA não deve ser uma "disciplina isolada" na sexta-feira à tarde. Ele precisa ser transdisciplinar, cruzando a matemática, as ciências, a história e a leitura. O objetivo não é fazer com que o aluno apenas use a ferramenta tecnológica, mas que ele tenha autonomia para questioná-la.
Uma Convocação para a Mudança
A mensagem final que ecoou do encontro é que a educação para a era da Inteligência Artificial não se resume a investir em infraestrutura tecnológica; trata-se de um compromisso institucional, pedagógico e democrático. Precisamos formar cidadãos que saibam navegar nos mundos online e offline com segurança, ética e responsabilidade, garantindo que a tecnologia sirva para expandir o potencial humano, e não para apagá-lo.
E agora, a pergunta fica para nós, educadores do GEG Brasil:
Em sua escola ou sala de aula, a tecnologia tem sido usada apenas como um "quadro negro digital" ou como ferramenta para desenvolver o pensamento crítico?
O que você pode fazer, ainda esta semana, para incentivar seus alunos a analisarem criticamente as informações que recebem pelo celular?
Questão profunda e necessária! Ajustar rotas na Educação, com vieses de colaboração nas leituras digitais.
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