Eliane Bravo
Neste contexto, a utilização de ferramentas digitais como o "Flow" e a produção musical despontam como uma metodologia. Ao instrumentalizar essa ferramenta em sala de aula, o educador pode trabalhar de forma transversal e com mídias as temáticas antirracistas e decoloniais.
Este texto explora os possíveis usos das ferramentas digitais de Flow Musica por meio de sugestões práticas e exemplos, como elas podem ser articuladas de forma transversal para trabalhar a ERER nas escolas.
Ferramentas de Inteligência Artificial e Criação: Google Flow Music
A recente
popularização das IAs generativas de áudio revolucionou o acesso à produção
sonora. Ferramentas como o recém-anunciado Google Flow Music permitem
que qualquer usuário gere músicas, batidas afrodiaspóricas e harmonias por meio de comandos de texto ou prompts.
Nesta perspectiva, isso significa que um estudante pode focar inteiramente na escrita poética de uma letra sobre a resistência quilombola ou a luta indígena, utilizando o Flow música para gerar a batida e a musicalidade, superando a barreira técnica da composição instrumental.
Possibilidades de Trabalho: Sugestões e Exemplos Práticos
Abaixo, apresento como instrumentalizar essas ferramentas digitais no currículo escolar, atendendo aos preceitos da ERER.
1. Educação Infantil: A Trilha Sonora das Nossas Histórias
Nesta
etapa, o foco é a ludicidade, a contação de histórias e a construção de um
imaginário positivo sobre as identidades negra e indígena. O professor opera a
ferramenta 100% do tempo, mas as crianças fornecem a "matéria-prima"
criativa.
Ação Pedagógica: Durante a leitura de obras de literatura infantil com protagonismo negro ou indígena (por exemplo, uma história sobre as aventuras de Zacimba Gaba, o professor pausa a narrativa e pergunta à roda de crianças: "Como seria a música da Zacimba correndo pela floresta? É rápida ou devagar? Tem som de tambor ou de chocalho?"
A Mediação com a IA: O professor traduz as respostas das crianças para o prompt da IA (ex: "música alegre, ritmo de ciranda infantil, tambores suaves, flauta, clima de aventura e natureza").
Objetivo ERER: Naturalizar o contato com ritmos afrodiaspóricos e indígenas desde a primeira infância. A música gerada passa a ser o "tema oficial" daquele livro na sala de aula, criando afeto e memória auditiva atrelados a protagonistas não-brancos.
2. Ensino Fundamental I: Dicionário Musical das Nossas Raízes
Aqui,
as crianças já estão no processo de alfabetização e letramento. O foco é
investigar a contribuição linguística africana e indígena no nosso português
diário.
Ação Pedagógica: A turma pesquisa palavras de origem banto, iorubá ou tupi-guarani que usamos no cotidiano (ex: cafuné, pipoca, moqueca, caçula, maracujá). Em pequenos grupos, os alunos criam quadrinhas ou rimas simples explicando o significado de suas palavras favoritas.
A Mediação com a IA:
O professor projeta a tela do Google Flow Music no quadro e constrói o prompt junto com os alunos. Eles pedem para a IA criar
bases instrumentais de ritmos
regionais (como o Congo capixaba, samba de roda
ou carimbó). Depois, os alunos cantam ou recitam suas rimas por cima da batida
gerada.
· Objetivo ERER:
Valorizar o patrimônio linguístico e cultural, tirando-o do lugar de
"folclore" e trazendo-o para o centro do letramento.
3. Ensino Fundamental II: Slam de Lendas e Heróis Locais
Estudantes
dessa faixa etária buscam identidade, pertencimento e meios de expressão mais
dinâmicos, dialogando muito com a cultura urbana (Hip Hop, Trap, Slam).
· Ação Pedagógica:
O professor propõe um projeto de Poesia Slam
(batalhas de poesia falada) focada em personalidades históricas de resistência
que viveram na região ou no estado, como a guerreira Zacimba Gaba, ou sobre a
história de um quilombo local. Os alunos pesquisam e escrevem as poesias.
A Mediação com a IA: Para dar um tom profissional às apresentações, o professor atua como "produtor musical". Ele senta com cada grupo, e os alunos direcionam o professor sobre o clima da batida: "Professor, a poesia da nossa equipe é sobre a Revolta dos Malês, queremos um beat de Lo-Fi Hip Hop misturado com atabaques e um clima tenso". O professor digita o comando e gera a trilha.
Objetivo ERER: Promover o protagonismo juvenil. Eles percebem que a história de seus ancestrais pode ser contada usando a mesma linguagem estética e musical que eles consomem no TikTok ou no YouTube.
4. Composição Decolonial com IA (História e Linguagens)
Ação Pedagógica: O professor propõe que a turma pesquise figuras históricas apagadas pelos currículos tradicionais (ex: Dandara dos Palmares, Luiz Gama, Maria Firmina dos Reis, ou líderes indígenas como Ailton Krenak). Após a pesquisa, os alunos escrevem estrofes poéticas relatando a agência histórica desses sujeitos.
A Mediação com a IA: Em seguida, utilizam a ferramenta digital de IA para criar a música. Eles inserem o texto no aplicativo e configuram o prompt para gerar a música focado em ritmos afro-brasileiros (como tambor de crioula ou maracatu).
Objetivo ERER: O aplicativo elimina a inibição vocal dos alunos que não sabem cantar ou não tocam instrumento. Eles focam na qualidade do texto histórico-crítico, resultando em um produto final que pode ser compartilhado nas redes sociais da escola, materializando a legislação de forma tecnológica e imersiva.
5. Ensino Médio: Afrofuturismo e Trilha Sonora
Original para Documentários
No
Ensino Médio, os alunos já têm maturidade para debates complexos sobre racismo
estrutural, demarcação de terras e justiça social. A IA entra como ferramenta
de produção profissional de mídias.
· Ação Pedagógica: Os alunos produzem um mini-documentário ou um Podcast investigativo sobre um tema da ERER (ex: a invisibilidade estética da mulher negra ou o impacto das mudanças climáticas em territórios indígenas).
· A Mediação com a IA: O professor orienta sobre os direitos autorais éticos na internet. Os próprios alunos (ou o professor mediando pelo telão, dependendo da infraestrutura de TI da escola) criam a "Trilha Sonora Original" do projeto utilizando o conceito de Afrofuturismo ou Futurismo Indígena. Eles elaboram prompts: "Música eletrônica ambiente, sintetizadores futuristas misturados com cantos indígenas e percussão afro-brasileira, andamento lento, reflexivo".
· Objetivo ERER: Posicionar o aluno como um produtor de cultura decolonial de alta qualidade. Eles aprendem que as culturas africanas e indígenas não estão presas ao passado, mas dialogam diretamente com o futuro, a tecnologia e a cibercultura.
Considerações Finais
A transição
da ERER para o ambiente da cibercultura é um passo inevitável e altamente
profícuo. Ao adotar a ferramenta digital Flow Música, que gera batidas e vozes,
seja por projetos interativos ou pela curadoria algorítmica intencional, o
educador aproxima o debate étnico-racial da linguagem nativa da Geração Z.
Essa abordagem metodológica desburocratiza o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. O aluno deixa a posição de mero receptor passivo de conteúdos sobre racismo e escravidão para se tornar um criador ativo de mídias antirracistas. O ecossistema digital consagrou-se, assim, como uma ferramenta decolonial revolucionária no chão da escola pública e privada contemporânea.
Referências
BANCO MUNDIAL. Inovações educacionais no Brasil e na América Latina. Washington, DC: Banco Mundial, 2021.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008.
MARTINS, T.
C. S. O branqueamento no cotidiano escolar: práticas pedagógicas nos espaços
da creche. 2017. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Nove de Julho,
São Paulo, 2017.
Eliane Bravo é educadora, pesquisadora da temática ERER e Literatura Afrocentrada e entusiasta da inovação no ensino. Com uma trajetória multidisciplinar, formada em Pedagogia, Administração, Letras e Informática, com Complementação Pedagógica em Matemática, especialista em Informática na Educação e Gestão Escolar atua como professora efetiva nas redes de Sooretama e Linhares (ES) e como técnica na Secretaria Municipal de Educação (SEME) de Sooretama. Atualmente, pesquisadora da temática ERER e Literatura Afrocentrada (PPGEH/Ifes), dedica-se a promover práticas pedagógicas interculturais e decoloniais. É fundadora da marca AfroLeitura Viva, Google Champion, líder do GEG Brasil e Agente Regional da PNEERQ - políticas de equidade educacional, trabalhando para conectar inteligência artificial, gestão escolar e diversidade na sala de aula.

Maravilhosa. Parabéns pela iniciativa tão importante ao meio acadêmico e educacional.
ResponderExcluirRenedir Souza
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