Confesso que, durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo 2026, uma pergunta não saí da minha cabeça: será que sou só eu que estou incomodada com a enxurrada de propagandas de plataformas de apostas?
Elas aparecem nos intervalos comerciais, nas placas ao redor do gramado, nos uniformes das equipes e, muitas vezes, fazem parte da própria narrativa das transmissões. Para quem trabalha com educação, é difícil assistir a uma partida sem refletir sobre o impacto dessa exposição constante, principalmente entre adolescentes.
Essa reflexão me fez lembrar de uma atividade que desenvolvi com meus alunos do Ensino Médio algumas semanas antes do início da competição. Na época, eu já havia percebido que muitos estudantes conheciam plataformas de apostas, acompanhavam influenciadores ligados ao tema e conversavam naturalmente sobre esse universo. Diante desse cenário, decidi não ignorar o assunto. Preferi levá-lo para a sala de aula.
Como professora de Matemática, enxerguei ali uma oportunidade de trabalhar além dos cálculos. Queria desenvolver conceitos de probabilidade e Educação Financeira, mas também promover discussões sobre Educação Digital e Midiática, ajudando os estudantes a compreender como algoritmos, publicidade, estratégias de persuasão e influenciadores digitais podem impactar comportamentos e decisões.
O planejamento da atividade contou com o apoio do ecossistema Gemini. Utilizei o NotebookLM para reunir referências sobre Educação Financeira, Cultura Digital, BNCC e materiais relacionados às apostas esportivas. Ter essas informações organizadas em um único espaço facilitou a construção da sequência didática e permitiu que eu tivesse diferentes fontes para fundamentar a proposta.
Depois, recorri ao Gemini Chat como parceiro de planejamento. Em vez de pedir uma atividade pronta, utilizei a ferramenta para elaborar perguntas investigativas, antecipar possíveis hipóteses dos estudantes e estruturar uma sequência que favorecesse o pensamento crítico.
Foi assim que nasceu a pergunta que guiou toda a aula:
"Por que as pessoas continuam apostando mesmo perdendo dinheiro?"
A aula começou apenas com essa frase escrita no quadro. Não apresentei conceitos, fórmulas ou definições. Primeiro ouvi os estudantes.
Rapidamente surgiram comentários sobre propaganda, bônus oferecidos pelas plataformas, influência de criadores de conteúdo, emoção, facilidade para apostar e esperança de recuperar perdas. A partir dessas contribuições, organizamos uma investigação para compreender como funcionam esses sistemas.
Os grupos analisaram diferentes estratégias utilizadas pelas plataformas para manter os usuários conectados: notificações frequentes, promoções, recompensas rápidas, rankings e a sensação de estar sempre muito perto da vitória. Aos poucos, perceberam que essas estratégias não eram aleatórias, mas faziam parte de um sistema cuidadosamente planejado para estimular a permanência dos usuários.
Enquanto investigavam esse funcionamento, conceitos matemáticos surgiam naturalmente. A discussão sobre probabilidade deixou de ser apenas um exercício de cálculo para se tornar uma ferramenta de análise da realidade. Os estudantes passaram a refletir sobre risco, chance de ganho, interpretação de informações e tomada de decisão baseada em evidências.
Ao mesmo tempo, a atividade ampliou a discussão para a Educação Digital e Midiática. Compreender como algoritmos, publicidade direcionada e estratégias de persuasão influenciam comportamentos mostrou aos estudantes que desenvolver pensamento crítico também faz parte da formação matemática e da formação cidadã.
Essa conversa também abriu espaço para discutirmos princípios estudados pelo neuromarketing e pela economia comportamental. Refletimos sobre como elementos como recompensas imediatas, notificações frequentes, a sensação de "quase ganhar", cores, gatilhos emocionais e a presença constante das marcas podem influenciar nossa atenção e nossas decisões. Os estudantes perceberam que, muitas vezes, a decisão de apostar não depende apenas da probabilidade matemática, mas também de estratégias cuidadosamente planejadas para manter o usuário engajado. Compreender esses mecanismos tornou a discussão sobre Educação Financeira ainda mais significativa, pois permitiu relacionar os cálculos à forma como tomamos decisões no cotidiano.
Após a aula, utilizei o Gemini Canvas para transformar as principais discussões em flash cards de revisão. Os cartões abordavam conceitos como probabilidade, algoritmos, influência digital, sistemas digitais, pensamento computacional e tomada de decisão. Esse material foi utilizado na aula seguinte para retomar os conceitos e consolidar as aprendizagens de forma dinâmica.
Assistindo hoje às transmissões da Copa, tenho ainda mais convicção de que levar esse tema para a sala de aula foi uma decisão acertada. A presença massiva das propagandas de apostas mostra que nossos estudantes convivem diariamente com mensagens cuidadosamente planejadas para captar sua atenção e influenciar suas escolhas.
A escola não precisa competir com esse mundo. Mas pode ajudar os estudantes a compreendê-lo.
Essa experiência foi tão significativa que a levei ao Gemini Summit 2026, compartilhando com educadores uma prática que nasceu da observação do cotidiano e foi potencializada pelo uso do Gemini. Meu objetivo foi mostrar como a Inteligência Artificial pode apoiar o professor na construção de experiências de aprendizagem conectadas à realidade dos estudantes, transformando temas atuais em oportunidades para desenvolver competências matemáticas, Educação Financeira, Educação Digital e Midiática e pensamento crítico.
Acredito que esse seja um dos maiores potenciais da Inteligência Artificial na educação. Ela não substitui o planejamento, a intencionalidade ou a mediação do professor. Pelo contrário, amplia nossa capacidade de criar experiências de aprendizagem mais contextualizadas, investigativas e significativas.
No fim das contas, a aula não era sobre bets. Era sobre aprender a fazer escolhas mais conscientes em um mundo cada vez mais influenciado por dados, algoritmos e estratégias de persuasão. E talvez esse seja um dos papéis mais importantes da escola hoje: ajudar nossos estudantes a compreenderem o mundo para que possam participar dele de forma crítica, ética e responsável.
Os desafios que chegam à escola mudam o tempo todo. Compartilhar práticas é uma forma de aprendermos juntos a enfrentá-los. Se esta experiência inspirou novas ideias para as suas aulas, adapte a proposta à sua realidade e conte nos comentários como ela aconteceu com seus estudantes. Será um prazer continuar essa conversa com outros educadores.

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